Empréstimo para pagar empréstimo: por que crédito não salva empresa desorganizada

Por Evandro Gonçalves · 21 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

O primeiro empréstimo sempre parece um alívio.

O dinheiro cai na conta. O fornecedor é pago. A folha sai em dia. Por algumas semanas, o empresário dorme melhor.

Eu sei como é, porque vivi isso. Nas minhas operações de comida, quando o dinheiro não fechava, fui ao banco. E o empréstimo resolveu o mês.

Só o mês.

No mês seguinte, o buraco continuava lá. O preço continuava errado. A operação continuava perdendo. Agora com uma parcela a mais. Aí veio o segundo empréstimo, para pagar o primeiro.

É assim que começa. Não com uma decisão grande e irresponsável, mas com uma sequência de decisões pequenas que, uma por uma, pareciam fazer sentido.

Como a bola de neve se forma

Além do empréstimo para pagar empréstimo, existe um tipo mais silencioso, que quase ninguém reconhece: o crédito usado para parcelar conta que se repete todo mês.

O mês aperta, e o dono parcela uma conta recorrente em 10 ou 12 vezes. Resolveu. No mês seguinte, a conta chega de novo, inteira, mais a primeira parcela do mês passado. O mês aperta outra vez. O dono parcela de novo.

Agora são duas parcelas. Depois, três. Depois, quatro.

A conta não diminui. Só cresce. Porque a causa, a empresa gastar mais do que gera, nunca foi tocada. O crédito só empurrou o problema para a frente e colocou juros em cima.

E isso não é só o que eu vejo nas empresas que acompanho. Uma pesquisa do Sebrae com mais de 6 mil donos de pequenos negócios mostrou que a forma de financiamento mais usada por eles é o cartão de crédito, empresarial ou pessoal: 39%. O cheque especial aparece com 7%, o empréstimo em banco privado também com 7% e em banco público, 4%.

Quase quatro em cada dez donos financiam a empresa no cartão, uma das linhas mais caras que existem. E, pelo que eu vejo, quase sempre sem plano, sem destino e sem saber para quê.

O que o crédito faz numa empresa desorganizada

Imagine colocar dinheiro do banco dentro de um balde furado: preço sem o custo real, contas misturadas, lucro desconhecido, caixa sem projeção, recebimentos sem controle, retrabalho. São os seis vazamentos que mais encontro.

O dinheiro não fecha nenhum furo. Passa por eles como passava a venda. A diferença é que a venda era sua. O dinheiro do banco tem dono, prazo e juro.

Numa empresa desorganizada, o crédito faz três coisas, e nenhuma é boa:

  • Compra tempo. Tempo caro, que acaba.
  • Esconde o problema. Com dinheiro na conta, o dono para de procurar o vazamento.
  • Aumenta o buraco. Quando o tempo acaba, a conta volta com juros.

Crédito não salva empresa desorganizada. Ele adia. E adiar custa caro.

A empresa que parou para não quebrar

Um dos casos que acompanhei chegou a um ponto em que não havia mais parcela que desse conta. A decisão foi a mais dura que uma empresa pode tomar sem fechar as portas: parar.

A empresa entrou em stand-by. Em vez de continuar rodando para pagar juros, sentou com todos os credores, todos, e negociou para segurar os juros de forma que todo mundo recebesse. Não foi calote. Foi o contrário: parar de cavar para conseguir pagar.

Depois, recomeçou. Levou seis anos para quitar todas as dívidas antigas. Não tem atalho nessa história.

Hoje essa empresa continua de pé e expandiu recentemente: alugou um barracão de 5 mil metros quadrados.

Repare na ordem: primeiro parar de piorar, depois arrumar, depois pagar. Só então crescer.

A primeira pergunta: para quê?

Quando um empresário me diz que precisa de crédito, a minha primeira pergunta é sempre a mesma: para quê?

Se a resposta é "para pagar as contas", a conversa para ali. Esse crédito vai gerar uma nova conta para pagar as contas que já existem.

Crédito, para mim, é crédito de alavancagem: usar o dinheiro do banco para fazer a empresa gerar mais do que ele custa. Dois exemplos reais:

  • Uma fábrica de cabos tomou crédito para reestruturar a operação e reduzir a folha. O dinheiro mudou a empresa, não tapou o mês. A história completa está em vender mais e lucrar menos.
  • Uma açaiteria tomou crédito programado para comprar a matéria-prima do verão, com data e destino. Eram 24 parcelas, e ela quitou no oitavo mês. Detalhes em empresa dá lucro mas não tem caixa.

Nos dois casos, alguém sabia para onde o dinheiro ia e de onde viria o pagamento. Isso separa o crédito que alavanca do crédito que afunda.

Sinais de que o crédito virou bola de neve

  • Você já pegou empréstimo para pagar outro empréstimo.
  • Você parcela contas que se repetem todo mês.
  • O total de parcelas cresce, mês a mês.
  • Você não sabe dizer o que o último empréstimo trouxe de volta para a empresa.
  • O alívio do crédito dura cada vez menos.

Se você marcou um só, pare antes de pegar o próximo.

Para pensar na sua empresa

  1. Liste todos os empréstimos e parcelamentos que a empresa tem hoje. Para cada um: para que serviu?
  2. Quantos foram para pagar conta, e quantos para fazer a empresa gerar mais?
  3. Quanto a empresa paga de juros por mês? Você sabe esse número sem procurar?
  4. Se o banco lhe oferecesse crédito amanhã, o que você faria com ele? A resposta resolve um vazamento ou só tapa o mês?

Antes do próximo crédito, um fluxo de caixa projetado mostra se ele cabe na sua operação. E o Diagnóstico Alto Impacto mostra se a sua empresa está pronta para buscar crédito agora ou precisa se organizar antes.

Fonte: Sebrae, O Financiamento dos Pequenos Negócios no Brasil 2023 (10ª edição), em parceria com a Meta Pesquisa de Opinião. 6.237 entrevistas por telefone, de 1º a 30 de junho de 2023, em todos os estados e no Distrito Federal.

Perguntas frequentes

Como sair do ciclo de empréstimo para pagar empréstimo?

Primeiro parar de piorar: não contratar crédito novo para pagar conta. Depois arrumar a causa (preço, contas misturadas, caixa) e renegociar com os credores de forma que todos recebam. Só então crescer. Não há atalho.

Quando o crédito empresarial faz sentido?

Quando é crédito de alavancagem: o dinheiro faz a empresa gerar mais do que ele custa, com destino, data e fonte de pagamento definidos. Exemplos: reestruturar a operação para reduzir custos ou comprar matéria-prima de uma temporada já projetada.

Parcelar contas do mês é um problema?

Quando a conta se repete todo mês, sim. No mês seguinte ela chega inteira de novo, somada à parcela anterior. As parcelas se acumulam porque a causa, gastar mais do que gera, não foi tocada.

Fontes